segunda-feira, 18 de abril de 2016

Deputados ‘escorregam’ nos argumentos em votação

Com Agência Brasil
Dez segundos. Esse foi o tempo determinado para que cada deputado federal presente na Câmara, nesse domingo (17), proferisse seu voto contra, a favor ou até para se abster da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).
Nas longas horas de votação na Câmara, que por pouco não entraram na segunda-feira (18), o que mais se viu foram agradecimentos a Deus, à família, ao Brasil, a quem já morreu… A sessão foi marcada pela presença de bandeiras, cartazes, hino e gritos de guerra.
Pouco se falou dos reais motivos que levaram à abertura do processo de impeachment. Entre eles, as pedaladas fiscais.
Podia se contar nos dedos quem, realmente, lembrou disso na hora de votar. Mais parecia que, ao ficarem diante do microfone – e das câmeras – era hora de dar seu show. E, para isso, nada melhor do que tentar uma frase de efeito, seja para dar satisfação à base, seja para criticar o Governo, ou simplesmente porque seguiu a orientação do partido.
Polêmico, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), soltou: “Que Deus tenha misericórdia desta nação, voto sim”. Ele não foi o primeiro, nem o último, a evocar religião na votação. “Pela paz de Jerusalém, eu voto sim”, justificou, por sua vez, o deputado Ronaldo Fonseca (PROS-DF).
Houve, também, inúmeras citações a familiares. Favorável ao impeachment, o deputado Marco Tebaldi (PSDB-SC) lembrou o neto. “Em nome de Joinville, de Santa Catarina, pelo meu neto Pedro, pelo futuro dele que nasceu há dez dias, por todas as famílias de bem do Brasil, meu voto é sim”, disse.
E quem quisesse que o filho votasse em seu lugar – caso do deputado pernambucano Eduardo da Fonte (PP). O parlamentar chegou a anunciar que o herdeiro iria cantar o voto, mas foi impedido pelo presidente da Câmara.
Houve, ainda, quem lembrasse a Operação Lava Jato, os fundamentos do cristianismo, e até quem falasse que queriam destruir o País com a “proposta de que criança troque de sexo e aprenda sexo na escola com seis anos de idade”. A frase é de Éder Mauro (PSD-PA).
Os corretores de seguros do País foram lembrados por Lucas Vergilio (GO), parlamentar do Solidariedade. Já Eduardo Bolsonaro (PSC-SP), filho de Jair Bolsonaro, lembrou aqueles que votaram contra o Estatuto do Desarmamento. E, ao fim de sua fala, chegou a simular armas com as mãos. O deputado Marco Feliciano (SP) disse que o PT correspondia ao “Partido das Trevas”.
(Reprodução/Twitter)
A professora do Departamento de Ciência Política e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher da UFMG, Marlise Matos, disse achar “estarrecedor, em um País republicano, que tem princípios de laicidade do Estado, levantar argumentos religiosos e a família”. “Pouquíssimos levantaram os motivos reais que são julgados no processo. É entristecedor ver a qualidade de argumentos, todos arregimentados para seu entorno, em questões de seu interesse”, disse.
Já para o professor do departamento de Ciência POlítca da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Jorge Almeida, em nenhum momento ficou caracterizado o crime por parte da presidente. “Raros foram os parlamentares pró-impeachment que argumentaram a existência de crime de responsabilidade. Falaram sobre questões econômicas, políticas, sociais, religiosas, lembraram as famílias e os próprios familiares. Isso mostra a fraqueza desse argumento e que foi realmente um julgamento político”, argumentou.
Por sua vez, o professor do programa de pós-graduação de ciência política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Rodrigo Gonzalez, diz que cada um está aproveitando seus 30 segundos de fama.
E como não poderia ser diferente, as manifestações dos deputados viraram alvo nas redes sociais.

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