segunda-feira, 28 de março de 2016

Mulher é esfaqueada pelo companheiro mas não quer medida protetiva

Por Gleide Ângelo
A dependência afetiva que destrói a mulher lentamente, ao ponto dela não conseguir mais ter vontade, amor próprio, autoestima e respeito / Foto: Sérgio Bernardo/JC Imagem
A dependência afetiva que destrói a mulher lentamente, ao ponto dela não conseguir mais ter vontade, amor próprio, autoestima e respeitoFoto: Sérgio Bernardo/JC Imagem
Caros leitores,

No artigo de hoje falarei sobre uma mulher que me falou que recentemente foi esfaqueada pelo companheiro. Ele foi preso e, na hora de fazer a medida protetiva, ela desistiu. Disse que não queria, pois iria visitá-lo no presídio e “tirar” a cadeia dele. Vou chamar essa mulher pelo nome fictício de JOANA.

Conversei muito com JOANA, e ela narrou que o companheiro era muito ciumento, não deixava que ela saísse de casa. Quando ela ia à casa dos familiares, tinham muitas discussões. Neste dia, estava havendo uma festa na casa dos tios e JOANA resolveu ir à festa. O companheiro, que chamarei de JOÃO foi atrás dela e ficou vigiando para ver com quem ela conversava.

No momento de ir embora, JOÃO foi reclamar com JOANA porque ela havia conversado com um vizinho que ele não conhecia. JOANA  deu uma resposta que ele não gostou e JOÃO foi à cozinha, pegou uma faca peixeira e desferiu dois golpes em JOANA. Uma prima de JOANA que presenciou as agressões chamou os familiares dela que conseguiram imobilizar JOÃO e ligaram para o 190. Os policiais militares chegaram e conduziram JOÃO à delegacia, que foi preso e encaminhado ao Cotel.

Depois de cinco dias internada, JOANA disse que teve alta e foi intimada à Delegacia para prestar declarações. No depoimento, ela contou todos os fatos que ocorreram naquele dia, mas na hora que foi oferecida a Medida Protetiva, ela disse: “quando vi que depois que fosse solto, ele não poderia mais se aproximar de mim, eu desisti, não quis. O que eu quero é ir visitar ele na prisão, eu quero tirar a cadeia dele, porque a culpa é minha dele estar lá”.

Para nós que trabalhamos com a violência diária, é difícil escutar um relato desses, e para muitos incompreensível. Porém, o que está acontecendo com JOANA é o que ocorre com muitas mulheres diariamente. Ela é vítima há muitos anos da violência psicológica, que faz com que ela acredite que não é nada sem o companheiro. A mulher que sofre violência psicológica fica tão destruída emocionalmente que acaba acreditando que é culpada de todos os problemas que ocorrem no relacionamento.
 Ela é vítima há muitos anos da violência psicológica, que faz com que ela acredite que não é nada sem o companheiro Gleide Ângelo


No caso de JOANA, ela me disse que sofre agressões físicas há muito tempo, mas que JOÃO nunca tinha chegado ao ponto de esfaqueá-la.  É por isso que digo que a violência contra a mulher é uma crescente, ela geralmente inicia com a violência psicológica, depois progride para a física. Perguntei a JOANA porque ela nunca denunciou o companheiro, e ela disse que ele a ameaçava de morte, ele dizia que se ela denunciasse, ele a mataria. Mas o que ocorreu com JOANA foi justamente o contrário, ela iria morrer porque nunca o denunciou. E continue conversando e dizendo que agora não tinha porque ter medo, pois ele estava preso. Ela respondeu, “está preso por minha culpa”. 

Por isso, vamos tentar entender o que está ocorrendo com JOANA e com muitas mulheres que estão na mesma situação. Há muitos profissionais que estudam essa dependência afetiva que destrói a mulher lentamente, ao ponto dela não conseguir mais ter vontade, amor próprio, autoestima e respeito. Ela passa a viver em função do homem que "ela ama" incondicionalmente, cegamente. Ela cria na mente um homem que não existe, ela nega enxergar a realidade e se submete a conviver com os vários tipos de agressões. Ela acredita que “um dia”, aquele homem frio, agressivo, insensível e violento “irá mudar”, e se transformará no homem ideal que ela criou em sua imaginação. Porém, esse homem “ideal”, na verdade é “irreal”, só existe na imaginação dela.

Um estudo muito interessante é o da terapeuta de casais, a norte americana Robin Norwood. Ela é especializada em tratamento de viciados. Há diversos vícios: o álcool, o cigarro, as drogas, o jogo, mas há também o vício em relacionamentos destrutivos, são os casos das "mulheres que amam demais". A terapeuta convive com mulheres dependentes emocionalmente há mais de 30 anos. Ela tem muitas histórias em seu consultório, e enxergou algumas características dessas mulheres que sofrem por amor.

1 - Tipicamente, você veio de um lar disfuncional em que suas necessidades emocionais não foram supridas;
2 - Tendo você mesma recebido poucos cuidados reais, tenta se satisfazer indiretamente essa necessidade não suprida se tornando uma cuidadora, especialmente de homens que parecem de algum modo carentes;

3 - Com pavor ao abandono, você fará tudo para impedir que um relacionamento termine;

4 - Quase nada é incômodo demais, toma tempo demais ou é caro demais se "ajuda" o homem com quem você está envolvida;

5 - Acostumada com a falta de amor nos relacionamentos pessoais, você está disposta a esperar, ter esperança e tentar agradar mais;

6 - Você está disposta a assumir mais de 50% da responsabilidade e de culpa em qualquer relacionamento;

7 - Sua autoestima é criticamente baixa, e no fundo você não acredita que merece ser feliz. Em vez disso acredita que deve conquistar o direito de aproveitar a vida;

8 - Em um relacionamento, você está muito mais conectado com seu sonho de como isso poderia ser do que com a realidade de sua situação;

9 - Você é viciada em homem e em dor emocional;

10 - Ao ser atraída por pessoas com problemas que precisam ser resolvidos, ou enredada em situações caóticas, incertas e emocionalmente dolorosas, você evita responsabilizar-se por si mesma;

11 - Você pode tender a episódios de depressão que tenta evitar com a excitação provocada por um relacionamento instável;
12 - Você não se sente atraída por homens gentis, estáveis, confiáveis e interessados em você. Acha esses homens "bons" entediantes.

Essas são algumas características das mulheres, que como JOANA sofrem por amor. A autoestima está tão destruída que ela se acha culpada do fracasso no relacionamento, e acha que deve ser punida com todo o tipo de agressão. O que JOANA precisa é de ajuda, pois ela está emocionalmente doente. Esse desamor, que ela chama de amor, a destruiu.

Na Lei Maria da Penha há a previsão de criação de Centros de Referências da Mulher, que oferece gratuitamente tratamento psicossocial às mulheres. No Estado de Pernambuco há diversos Centros de Referências. Quando ouvir alguma história, como a de JOANA, NÃO JULGUE, AJUDE. As mulheres não sofrem porque querem, elas apenas não sabem como se libertar desse amor doentio e destrutivo. Se você é uma mulher com a mesma história de JOANA, procure ajuda, ligue para os telefones abaixo e se conscientize que VOCÊ NÃO É CULPADA, VOCÊ É VÍTIMA! 

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA!

EM QUAIS ÓRGÃOS BUSCAR AJUDA:

Centro de Referência Clarice Lispector – (81)3355.3008/ 3009/ 3010
Centro de Referência da Mulher Maristela Just - (81) 3468-2485
Centro de Referência da Mulher Márcia Dangremon - 0800.281.2008
Centro de Referência Maria Purcina Siqueira Souto de Atendimento à Mulher – (81) 3524.9107
Central de Atendimento à Mulher do Governo Federal - 180
Polícia - 190 (se a violência estiver ocorrendo)
*As colunas assinadas não refletem, necessariamente, a opinião do NE10
PALAVRAS-CHAVE:notícias a mulher e a lei
A mulher e a leiGleide Ângelo é delegada especial, lotada na Delegacia de Olinda. gleideangelo@gmail.com

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