segunda-feira, 14 de julho de 2014

Bem-vindos à maior cidade fantasma do mundo: Ordos, China

Construída para mais de um milhão de habitantes, a cidade de Ordos foi projetada para ser a gloriosa coroação da Mongólia Interior. Porém, condenada à incompletude, essa metrópole futurística agora reina vazia nos desertos ao norte da China. Apenas 2% dos seus edifícios foram preenchidos; o resto tem sido abandonado à decadência, abandonado no meio da construção, dando a Ordos o título de Cidade Fantasma da China.
Ano passado eu viajei sozinho para a Mongólia Interior, para olhar de perto a bizarra metrópole fantasma de Ordos… e a experiência, como eu vim a descobrir, foi mais estranha do que qualquer coisa que eu pudesse ter me preparado para viver.
Este post apareceu originalmente no The Bohemian Blog, de Darmon Richter. Foi republicado aqui com a permissão de Darmon.

A cidade fantasma da Mongólia Interior

O mercado imobiliário chinês é um lugar estranho.
Com uma população de 1.351.000.000 pessoas e crescendo, o consequente crescimento na incorporação imobiliária levou a novos milionários e uma elite rapidamente crescente; ao mesmo tempo, porém, analistas temem que essa bolha imobiliária esteja prestes a estourar. O próprio país tem quase um trilhão de dólares em dívidas.
Enquanto isso, um bilhão de pessoas estão acordando para as possibilidades de carros velozes, smartphones, internet banda larga e cartões de crédito.
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Algumas das cidades chinesas que crescem mais rápido são praticamente desconhecidas no Ocidente; mas para cada história de sucesso econômico repentino, parece haver uma faixa escondida de quases-lás, becos sem saída e falências. Dentre essas assombrações, no entanto, nenhuma se compara à estranheza da “cidade fantasma” chinesa: Ordos.
A cidade de Ordos é um centro populacional fortemente estilizado, localizado próximo ao Deserto de Ordos, e é uma das maiores cidades da Mongólia Interior. Essa área é famosa por sua população rapidamente crescente e áreas urbanas em desenvolvimento: a região da Mongólia Interior ostenta um PIB maior do que a própria Pequim.
A Mongólia Interior é um lugar interessante. Local de nascimento de Gengis Khan, apenas 79% da população pertence à etinia Han, predominante na China, enquanto 17% são de origem mongol. Antes parte da Grande Mongólia, até consecutivos impérios chineses e, mais recentemente, a chegada ao poder do Partido Comunista, a Mongólia Interior foi sendo moldada e fundida, de novo e de novo, como uma província subordinada à China.
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Curiosamente, apesar disso a Mongólia Interior é um dos poucos lugares no mundo que ainda usa a escrita tradicional mongol. Enquanto a própria Mongólia adotou o cirílico durante os tempos comunistas, talvez os mongóis da China sentiram que tinham mais a provar, se agarrando fortemente a sua herança e, como consequência, os antigos caracteres ainda hoje aparecem em placas de rua em Ordos e Kangbashi.
Quando uma conglomeração de promotores imobiliários começaram a planejar um novo centro urbano do lado de fora da já existente cidade de Ordos, em 2003, a Kangbashi New Area, pareceu que Ordos estava pronta para se tornar a jóia futurística na coroa de cidades-estado chinesas.
Porém, ninguém realmente antecipou o quão rápido esse novo projeto iria desabar. Os prazos não foram cumpridos, empréstimos não foram pagos e investidores caíram fora antes que os projetos fossem terminados, deixando ali ruas inteiras de prédios inacabados. O custo absurdo de acomodação nessa cidade dos sonhos espantava muitos possíveis habitantes, então ficou difícil vender até mesmo os apartamentos completos.
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De acordo com um taxista local com quem conversei, muitos dos que chegaram a se mudar para Kangbashi já estavam abandonando suas casas e fugindo da cidade fantasma.
Enquanto alguns desenvolvedores ainda trabalham em seus ingratos projetos de construção, outros estão ocupados baixando os preços. Preços típicos de casas em Kangbashi caíram de 3666 dólares para 1566 dólares o metro quadrado, apenas nos últimos cinco anos.
Hoje em dia no distrito de Kangbashi, planejado para acomodar uma população de mais de um millhão, é lar de 20 mil pessoas solitárias, deixando 98% desse local de 355 quilômetros quadrados ainda sob construção ou completamente abandonado.
Uma reportagem da AlJazeera de novembro de 2009 mostrou a cidade de Ordos para uma audiência mundia, e a história correu no ano seguinte até a Time Magazine. Rapidamente, Ordos ganhou o título de “cidade fantasma da China”.
Desde então, jornalistas e fotógrafos, representando diversas publicações renomadas mundialmente, capturam as ruas vazias de Kangbashi, sua linha após linha de blocos de apartamentos abandonados no meio da construção.
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No entanto, nenhum deles pareceu se aventurar para longe do centro da cidade e suas ruas adjacentes; o resultado são paisagens urbanas pós-apocalípticas, amplas, que deixam muito à imaginação. Quanto mais eu lia sobre Ordos, mais eu queria saber o que se escondia atrás dessas portas e janelas colocadas apressadamente; ver por dentro, de verdade, sob a pele da cidade que nunca aconteceu.
Ano passado, meu sonho se tornou realidade. Eu me juntei ao Gareth do Young Pioneer Tours – um cara maluco o bastante para compartilhar minha fascinação por essa metrópole fantasma de outro mundo – e juntos começamos a planejar nossa jornada para a Mongólia Interior.

Chegada em Ordos

A cidade de Ordos é servida pelo novíssimo aeroporto Eerduosi. Do momento que nós saímos do avião, era óbvio que alguém, em algum momento, teve grandes planos para essa cidade.
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Esculpido futuristicamente, o prédio do aeroporto é enfeitado com fontes e plantas, cafés chiques e escadas rolantes iluminadas brilhando em tons de verde e azul.
Enquanto a população de Ordos é agora apenas 10% mongol para 90% de chineses, ainda assim o aeroporto resplandece com ícones orgulhosos da origem mongol; efígies de cavalos e menestréis olhando para baixo através do saguão central, enquanto o salão de embarque possui um vasto mural, um anel de pinturas retratando a vida de Gengis Khan.
Para toda essa opulência, contudo, o aeroporto estava quase vazio.
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Nós pegamos o segundo dos dois voos diários de Pequim para Eerduosi; partindo do campo de pouso pequeno, antigamente militar, nos subúrbios da capital. Ele nos trouxe para a Mongólia Interior depois de escurecer e nós pulamos para o ônibus de transferência em direção ao centro de Ordos.
Nós estivemos nesse ônibus luxuoso por cerca de meia hora, sentados em poltronas macias reclináveis como se fossem tronos, completos com seguradores de copos, descansos para as pernas e um canal de filmes… enquanto isso, cascos de concreto e metal passavam rápido em nossas janelas, meio vistos, distantes, formas sombrias aparecendo e desaparecendo na escuridão.
Me senti cercado por canteiros de obras invisiveis por todos os lados. Era difícil definir muito do que havia à nossa volta, por causa do interior brilhante do ônibus. No trecho final até Ordos, nós passamos pela casca de um futuro estádio; as vastas, esqueléticas arquibancadas circulando o campo de jogos central, aceso por holofotes industriais, e as regulares e reveladoras chamas de centenas de maçaricos.
Nunca em minha vida eu vi nada tão parecido com a segunda Estrela da Morte.
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Nós chegamos em Ordos nas primeiras horas da manhã, deixamos as malas no hotel e pegamos uma cerveja para ir bebendo no caminho. O centro da cidade não estava longe de ser finalizado: tem lojas e apartamentos, cafés, bares e restaurantes. Para toda essa aparente normalidade, no entanto, o centro de Ordos é presidido por uma série de torres sinistras, prédios de escritórios cinzas, apartamentos e shoppings, quase todos completamente vazios.
Nós andamos por algumas horas, passando por restaurantes, bares, cassinos e sex shops. As luzes brilhavam fortes em todos os estabelecimentos, mas não havia ninguém. Cortando caminho por um beco, passamos pelas luzes pink de um bordel. A frente dele era toda em vidro, expondo uma trupe de jovens garotas estavam como em um desfile de um guarda-roupa de lingeries combinando. Essa cerca de meia dúzia de prostitutas somavam mais gente do que todos os pedestres que encontramos durante toda a tarde.
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Em todos os lugares, parecia haver uma demonstração de que tudo estava pronto; de estabelecimentos com as portas bem abertas, não apenas como boas vindas mas, talvez, para provar um ponto. Para mostrar essa cidade como o destino funcional e hospitaleiro que quer tão desesperadamente ser.
Nós tentamos conseguir algo para comer em um restaurante, nos aproximando da porta onde crianças locais lutavam com uma mangueira d’água.
“Vocês têm comida?” nós perguntamos.
“Entrem, entrem”, elas responderam, apontando para a cabine mal iluminada, para a geladeira estocada com refrigerantes e macarrão frio. Não havia sinal de um adulto ali, nem sinal ou cheiro de um cozinheiro trabalhando. Como era comum em Ordos, as luzes estavam acesas mas não havia ninguém em casa.
Quando voltamos ao hotel, para as camas grandes e luxuosas e bares no quarto com uísque, amendoim e máscaras de gás, nós ainda estávamos lutando para apreender o lugar, para entender a cidade.
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Tudo parecia com um canteiro de obras: uma cantina de pedreiros esticada até acomodar toda uma cidade. Para os homens a trabalho, havia muito dos confortos mais primitivos – bares, lanches e bordéis – mas enquanto restaurantes chiques e cassinos se mostravam como prontos para turistas, políticos ou, ainda melhor, investidores, a maioria não era mais do que fachadas vazias e letreiros sem significado.
Quando amanheceu o diz seguinte, nós tivemos nossa primeira impressão da escala real do abandono. Nós saímos para um café da manhã rápido, o restaurante coberto pela sombra do centro comercial da cidade. Porém, no lugar de prédios de escritórios, uma série de dedos vazios se erguia para o céu; as cascas de futuras torres, uma depois da outra, fileira após fileira, desaparecendo na distância.
Logo acima de nós se erguia o que poderia ser a sede de um banco – quarenta andares de escritórios, embrulhados em uma casca de painéis espelhados. Sem manutenção, no entanto, essas escamas reflexivas estavam caindo em grandes extensões, revelando o concreto nu embaixo. Nem finalizado estava, e já precisava de uma reforma.
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Nós encontramos uma mesquita próxima ao centro, uma estrutura moderna e cubista formada de blocos brancos e limpos. Em uma inspeção mais profunda, pareceu que o templo nunca tinha sido utilizado; olhando pelas janelas de vidro não vimos nada além de espaço vazio, enquanto as portas em si ainda estavam embaladas em plástico, como se recém saídas às pressas de algum armazém.
Antes de irmos para nosso destino principal, decidimos dar uma olhada melhor por ali, o centro de Ordos mais antigo e mais densamente populoso.
Nós encontramos um taxista amigável, que estava muito feliz em nos levar para ver alguns dos principais pontos da cidade. Ele nos levou por um longo boulevard, iluminado por lâmpadas ornamentais, com figuras no estilo art deco dos anos de 1930; passou por um parque se tornando selvagem e por fileira após fileira de cascos de concreto. Cedo ou tarde chegamos a uma parada, diate da grande estátua de um cavalo posicionado no meio de uma esfera.
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“Ordos”, a inscrição da estátua proclamava para ninguém em particular, “A Ilustre Cidade Turística da China”.
Era quase demais pra nós… mas descobriríamos que era só o topo do iceberg. Nada poderia ter nos preparado para a autêntica estranheza do distrito de Kangbashi.

Kangbashi New Area

A nova zona residencial de Kangbashi foi construída na margem norte do rio Wulan Mulun, onde sua planície espaçosa, monumentos inovadores e arranha-céus marcantes pareciam em tudo uma metrópole do século 21; ou pareceria, se tivesse alguém vivendo por lá.
“Eles virão”, nosso taxista insistia, passando pelo antigo coração de Ordos. “Você não acha que nossa cidade é linda? Você vai ver. As pessoas virão”.
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Sua confiança era parafraseada por quase todos os locais com quem conversamos em nossa viagem; uma reafirmação cega de que essas belas construções não ficarão vazias para sempre. Era inconcebível que todo aquele trabalho duro tenha sido para nada.
Nós seguimos pela autoestrada, que liga Ordos a Kangbashi, antes de continuar a norderte em direção ao aeroporto em Dongsheng. No caminho, passamos pelo estádio novamente, menos dramático sob a luz do dia, atrás de uma floresta de poeira, torres inacabadas se espalhando pelos dois lados da rodovida. Guindastes permanecem de sentinelas sobre alguns desses canteiros de obras, muitos altos como quarenta, cinquenta andares acima do deserto. Em contraste, a rodovia em sia era suave e com boa manutenção; seus acostamentos e canteiros centrais decorados com arbustos bem regados e motivos artísticos de cavalos.
O táxi nos deixou no topo da praça Gengis Khan, de onde nós pudemos observar através de toda a desolação de Kangbashi. Em volta de nós se erguiam figuras de khans e seus conselheiros reais, de homens, mulheres e cavalos vestidos na tradicional elegância mongol.
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Mais ou menos 180 metros para o sul, no coração de um pátio aberto e espaçoso, empinam-se dois cavalos colossais, no que talvez seja o mais icônico dos monumentos de Kangbashi. Além dos cavalos, esta vasta praça central dá em um parque, com areia empoeirada no lugar de grama e caminhos que se espalham na forma de raios de sol.
Edifícios residenciais e corporativos se erguem em todas as direões – um alinhamento de blocos e arranha-céus satisfatoriamente simétrico – enquanto antes disso, às margens, os mais notáveis trabalhos de arquitetura de Kangbashi acompanhavam os caminhos da praça Gengis Khan. Seguindo o lado direito, passando dos dois cavalos, está o Teatro Kangbashi: uma construção curiosa, com formatos supostamente baseados em enfeites de cabeça mongóis.
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À nossa direita, o prédio da biblioteca parece um apinhado de livros, enquanto ao lado dele, o Museu de Ordos parece… bom, difícil dizer exatamente. Mad Architects, a empresa de nome tão adequado por trás do projeto, sugeriu que o design reflete “os cruzamentos encontrados pela comunidade ao redor, que está se esforçando para interpretar suas tradições locais ao recém-construído contexto urbano”.
Faça o que quiser com essa informação.
A praça à nossa volta não estava completamente vazia. Um homem observava seu filho, que soltava pipa ali perto, a rabiola reluzente bem acima das cabeças dos nobre khans. Havia bem pouco trânsito, ocasionalmente um carro ou bicicleta atravessava nosso caminho, nenhum deles parecendo ter muita pressa.
Um pequeno fluxo constante de pessoas entrava e saía do Museu de Ordos, observamos mais algumas perto dos cascos dos cavalos; conforme nos aproximávamos, notamos que usavam os monótonos uniformes dos varredores de rua. Com o passar do dia, perceberíamos que havia dez vezes mais pessoas as equipes de manutenção nas ruas de Kangbashi do que pedestres comuns.
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Caminhando lentamente ao redor dos caminhos que cobriam o centro da cidade, nós passamos por pequenas caixas de som montadas em hastes, tocando música folclórica mongol para ninguém em particular. Descendo a praça, após os cavalos e o teatro, placas impressas anunciavam um café e decidimos dar uma olhada nele. Pegamos o elevador até o último andar, onde as portas se abriram revelando uma confusão de risadinhas de garotas em idade escolar paradas em linha para nos receber. Era bem parecido com o bordel que vimos na noite anterior, só que agora as garotas estavam completamente vestidas.
Uma onda de surpresa e curiosidade passou através delas quando dois esrangeiros saíram do elevador. Nós fomos levados até nossos lugares, próximos à janela, de onde podíamos ver toda a vasta extensão da praça Gengis Khan. Kangbashi, sem dúvidas, era a cidade mais estranha que eu já tinha visto.
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Nós tomamos um café, depois uma cerveja, enquanto conversávamos excitadamente sobre as ruas vazias e os monumentos bizarros sob nós. Isso era tudo que tínhamos visto nas fotografias, uma metrópole surreal e desolada; a Mongólia antiga enlaçadas a cenas de um futuro distante, posicionado contra as areias turbilhantes do deserto de Mu Us. Até esse ponto, entretanto, nós só tínhamos visto a cidade das ruas, das estradas e dos caminhos de pedestres… era hora de ir mais fundo. Nós terminamos nossos drinques e saímos para a exploração de verdade.
Por: Darmon Richter

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